Esta leitura é um dos chamados “Cânticos do Servo do
Senhor”. Este Servo revela-se plenamente em Jesus, na sua Paixão: Ele escuta a
palavra do Pai e responde-lhe cheio de confiança, oferecendo-Se, em obediência
total, pela salvação dos homens.
Esta leitura é também um cântico, mas agora do Novo
Testamento, muito provavelmente em uso nas primitivas comunidades cristãs. Nele
é celebrado o Mistério Pascal: Cristo fez-Se um de nós, obedeceu aos desígnios
do Pai e humilhou-Se até à morte, e foi, por isso, exaltado até à glória de
“Senhor”, que é a própria glória de Deus.
O Evangelho de São Marcos é o mais antigo, porque escrito
antes dos outros, e é também o mais breve, não só na história da Paixão como em
todo ele. Este evangelista aponta com bastante realismo alguns episódios fruto
de especial observação de situações particulares e até pitorescas, como a que
envolve o servo do sumo-sacerdote aquando da prisão de Jesus.
Evangelho de Nosso
Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
“Faltavam dois dias
para a festa da Páscoa e dos Ázimos e os príncipes dos sacerdotes e os escribas
procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à traição para Lhe darem a morte. Mas
diziam:
«Durante a festa, não, para
que não haja algum tumulto entre o povo».
Jesus encontrava-Se em
Betânia, em casa de Simão o Leproso, e, estando à mesa, veio uma mulher que
trazia um vaso de alabastro com perfume de nardo puro de alto preço. Partiu o
vaso de alabastro e derramou-o sobre a cabeça de Jesus. Alguns indignaram-se e
diziam entre si:
«Para que foi esse
desperdício de perfume? Podia vender-se por mais de duzentos denários e dar o
dinheiro aos pobres».
E censuravam a mulher
com aspereza.
Mas Jesus disse:
«Deixai-a. Porque
estais a importuná-la? Ela fez uma boa acção para comigo. Na verdade, sempre
tereis os pobres convosco e, quando quiserdes, podereis fazer-lhes bem; mas a
Mim, nem sempre Me tereis. Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu de
antemão o meu corpo para a sepultura. Em verdade vos digo: Onde quer que se
proclamar o Evangelho, pelo mundo inteiro, dir-se-á também em sua memória o que
ela fez».
Então, Judas
Iscariotes, um dos Doze, foi ter com os príncipes dos sacerdotes para lhes
entregar Jesus. Quando o ouviram, alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. E
ele procurava uma oportunidade para entregar Jesus.
No primeiro dia dos
Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus:
«Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?».
Jesus enviou dois
discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma
bilha de água. Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O Mestre
pergunta: Onde está a sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus
discípulos?’. Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e
pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».
Os discípulos partiram
e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a
Páscoa.
Ao cair da tarde,
chegou Jesus com os Doze.
Enquanto estavam à mesa
e comiam, Jesus disse: «Em verdade vos digo: Um de vós, que está comigo à mesa,
há-de entregar-Me».
Eles começaram a
entristecer-se e a dizer um após outro: «Serei eu?».
Jesus respondeu-lhes: «É
um dos Doze, que mete comigo a mão no prato. O Filho do homem vai partir, como
está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser
traído! Teria sido melhor para esse homem não ter nascido».
Enquanto comiam, Jesus
tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: «Tomai:
isto é o meu Corpo».
Depois tomou um cálice,
deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. Disse Jesus: «Este é o meu
Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. Em
verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que
beberei do vinho novo no reino de Deus».
Cantaram os salmos e
saíram para o monte das Oliveiras.
Disse-lhes Jesus: «Todos
vós Me abandonareis, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as
ovelhas’. Mas depois de ressuscitar, irei à vossa frente para a Galileia».
Disse-Lhe Pedro: «Embora
todos Te abandonem, eu não».
Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje, esta mesma noite,
antes de o galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás».
Mas Pedro continuava a
insistir: «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei». E todos
afirmaram o mesmo.
Entretanto, chegaram a
uma propriedade chamada Getsémani e Jesus disse aos seus discípulos: «Ficai
aqui, enquanto Eu vou orar».
Tomou consigo Pedro,
Tiago e João e começou a sentir pavor e angústia.
Disse-lhes então: «A
minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai».
Adiantando-Se um pouco,
caiu por terra e orou para que, se fosse possível, se afastasse d’Ele aquela
hora. Jesus dizia: «Abá, Pai, tudo
Te é possível: afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça o que Eu quero, mas
o que Tu queres».
Depois, foi ter com os
discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro: «Simão, estás a dormir? Não
pudeste vigiar uma hora? Vigiai e orai, para não entrardes em tentação. O
espírito está pronto, mas a carne é fraca».
Afastou-Se de novo e
orou, dizendo as mesmas palavras. Voltou novamente e encontrou-os dormindo, porque
tinham os olhos pesados
e não sabiam que
responder.
Jesus voltou pela
terceira vez e disse-lhes: «Dormi agora e descansai... Chegou a hora: o Filho
do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. Levantai-vos. Vamos. Já se
aproxima aquele que Me vai entregar».
Ainda Jesus estava a
falar, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com
espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes, pelos escribas e os
anciãos. O traidor tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse
mesmo. Prendei-O e levai-O bem seguro».
Logo que chegou,
aproximou-se de Jesus e beijou-O, dizendo: «Mestre».
Então deitaram-Lhe as
mãos e prenderam-n’O.
Um dos presentes puxou
da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus tomou
a palavra e disse-lhes: «Vós saístes com espadas e varapaus para Me prender, como
se fosse um salteador. Todos os dias Eu estava no meio de vós, a ensinar no
templo, e não Me prendestes! Mas é para se cumprirem as Escrituras».
Então os discípulos
deixaram-n’O e fugiram todos.
Seguiu-O um jovem,
envolto apenas num lençol. Agarraram-no, mas ele, largando o lençol, fugiu nu.
Levaram então Jesus à
presença do sumo-sacerdote, onde se reuniram todos os príncipes dos sacerdotes,
os anciãos e os escribas.
Pedro, que O seguira de
longe, até ao interior do palácio do sumo-sacerdote, estava sentado com os
guardas, a aquecer-se ao lume.
Entretanto, os
príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra
Jesus para Lhe dar a morte, mas não o encontravam. Muitos testemunhavam
falsamente contra Ele, mas os seus depoimentos não eram concordes.
Levantaram-se então
alguns, para proferir contra Ele este falso testemunho: «Ouvimo-l’O dizer: ‘Destruirei
este templo feito pelos homens e em três dias construirei outro que não será
feito pelos homens’». Mas nem assim o depoimento deles era concorde.
Então o sumo sacerdote
levantou-se no meio de todos e perguntou a Jesus: «Não respondes nada ao que
eles depõem contra Ti?». Mas Jesus continuava calado e nada respondeu. O sumo
sacerdote voltou a interrogá-l’O: «És Tu o Messias, Filho do Deus Bendito?».
Jesus respondeu: «Eu
Sou. E vós vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso vir sobre
as nuvens do céu».
O sumo sacerdote rasgou
as vestes e disse: «Que necessidade temos ainda de testemunhas? Ouvistes a
blasfémia. Que vos parece?».
Todos sentenciaram que
Jesus era réu de morte. Depois, alguns começaram a cuspir-Lhe, a tapar-Lhe o
rosto com um véu e a dar-Lhe punhadas, dizendo: «Adivinha». E os guardas
davam-Lhe bofetadas.
Pedro estava em baixo,
no pátio, quando chegou uma das criadas do sumo-sacerdote. Ao vê-lo a
aquecer-se, olhou-o de frente e disse-lhe: «Tu também estavas com Jesus, o
Nazareno». Mas ele negou: «Não sei nem entendo o que dizes». Depois saiu para o
vestíbulo e o galo cantou. A criada, vendo-o de novo, começou a dizer aos
presentes: «Este é um deles». Mas ele negou segunda vez. Pouco depois, os
presentes diziam também a Pedro: «Na verdade, tu és deles, pois também és
galileu». Mas ele começou a dizer imprecações e a jurar: «Não conheço esse
homem de quem falais». E logo o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro
lembrou-se do que Jesus lhe tinha dito: «Antes de o galo cantar duas vezes, três
vezes Me negarás». E desatou a chorar.
Logo de manhã, os
príncipes dos sacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e os escribas e
todo o Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram entregá-l’O a Pilatos.
Pilatos perguntou-Lhe: «Tu
és o Rei dos judeus?».
Jesus respondeu: «É
como dizes».
E os príncipes dos
sacerdotes faziam muitas acusações contra Ele.
Pilatos interrogou-O de
novo: «Não respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam».
Mas Jesus nada
respondeu, de modo que Pilatos estava admirado.
Pela festa da Páscoa, Pilatos
costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. Havia um, chamado Barrabás, preso
com os insurrectos que numa revolta tinham cometido um assassínio.
A multidão, subindo, começou
a pedir o que era costume conceder-lhes.
Pilatos respondeu: «Quereis
que vos solte o Rei dos judeus?».
Ele sabia que os
príncipes dos sacerdotes O tinham entregado por inveja.
Entretanto, os
príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse antes
Barrabás.
Pilatos, tomando de
novo a palavra, perguntou-lhes: «Então que hei-de fazer d’Aquele que chamais o
Rei dos judeus?».
Eles gritaram de novo: «Crucifica-O!».
Pilatos insistiu: «Que
mal fez Ele?».
Mas eles gritaram ainda
mais: «Crucifica-O!».
Então Pilatos, querendo
contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás e, depois de ter mandado açoitar
Jesus, entregou-O para ser crucificado.
Os soldados levaram-n’O
para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram toda a coorte. Revestiram-n’O
com um manto de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos que
haviam tecido. Depois começaram a saudá-l’O: «Salve, Rei dos judeus!».
Batiam-Lhe na cabeça
com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante d’Ele. Depois
de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas
roupas. Em seguida levaram-n’O dali para O crucificarem.
Requisitaram, para Lhe
levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene, pai de
Alexandre e Rufo. E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer, lugar do
Calvário.
Queriam dar-Lhe vinho
misturado com mirra, mas Ele não o quis beber. Depois crucificaram-n’O. E
repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que
levaria cada um.
Eram nove horas da
manhã quando O crucificaram. O letreiro que indicava a causa da condenação tinha
escrito: «Rei dos Judeus».
Crucificaram com Ele
dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. Os que passavam
insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo: «Tu que destruías o templo e o
reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz».
Os príncipes dos
sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo: «Salvou os outros
e não pode salvar-Se a Si mesmo! Esse Messias, o Rei de Israel, desça agora da
cruz, para nós vermos e acreditarmos». Até os que estavam crucificados com Ele
O injuriavam.
Quando chegou o
meio-dia, as trevas envolveram toda a terra até às três horas da tarde. E às
três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: «Eloí, Eloí, lemá sabactáni?».
Que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?».
Alguns dos presentes,
ouvindo isto, disseram: «Está a chamar por Elias».
Alguém correu a embeber
uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe a beber e disse: «Deixa
ver se Elias vem tirá-l’O dali».
Então Jesus, soltando
um grande brado, expirou.
O véu do templo
rasgou-se em duas partes de alto a baixo. O centurião que estava em frente de
Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou: «Na verdade, este homem era
Filho de Deus».
Estavam também ali umas
mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e
de José, e Salomé, que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia,
e muitas outras que tinham subido com Ele a Jerusalém.
Ao cair da tarde –
visto ser a Preparação, isto é, a véspera do sábado – José de Arimateia,
ilustre membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, foi corajosamente
à presença de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos ficou admirado de
Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se Jesus já
tinha morrido.
Informado pelo
centurião, ordenou que o corpo fosse entregue a José. José comprou um lençol, desceu
o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; depois depositou-O num sepulcro
escavado na rocha e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro.
Entretanto, Maria
Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado.”
Palavra da salvação.