sábado, 27 de fevereiro de 2016

Se não vos arrependerdes, morrereis do mesmo modo

DOMINGO, 28 DE FEVEREIRO DE 2016



(III Domingo da Quaresma, 28 de Fevereiro de 2016)

“Se não vos arrependerdes, morrereis do mesmo modo”

Deus não vos salva sem nós
A notícia de dois factos (algumas mortes numa revolta contra os romanos e o desmoronamento de uma torre que sepulta algumas pessoas) dá a Cristo ocasião de falar que o juízo de Deus virá repentinamente. Não só será imprevisto, mas cairá sobre quem menos o espera.
Às vezes admiramo-nos do lugar que a morte ocupa no anúncio do Reino; muitos ateus, e até mesmo cristãos, censuram a Igreja por essa espécie de complacência no servir-se do pavor da morte para levar os homens à conversão. No entanto, a morte não deveria ser causa de pavor; é, antes, um “sinal” que todo homem deve forçosamente interpretar. O convite do Cristão a fazer penitência não é um convite a preparar-se à pressa para entrar na outra vida. A penitência consiste exactamente em consentir morrer, e isto é, para todos os homens, a prova mais decisiva de sua condição de criatura.
A conversão, acto livre do homem
A urgência da conversão por causa da proximidade do juízo de Deus, que os sinais dos tempos continuamente nos evocam, é a nossa resposta à experiência do Deus que vem fazer-nos sair do Egipto, que vem ajudar-nos a encontrar a nossa identidade de homens. Ele ouve o clamor do seu povo e manda Moisés "libertá-lo das mãos dos egípcios e fazê-lo sair daquele país para uma terra boa e espaçosa" (1ª leitura). Um povo libertado é um povo em conversão. Uma conversão contínua. Assim como não foi suficiente ao povo de Israel, para ser fiel a Deus, passar o mar Vermelho, alimentar-se do maná e matar a sede com a água do rochedo (de facto, insurgiram-se contra Deus e foram castigados), também a nós, novo povo de Deus, não basta sermos baptizados e termos participado da mesa do corpo e sangue de Cristo, para entrarmos no reino da promessa (2ª leitura). A vida do povo no deserto, no tempo de Moisés, admoesta Paulo, foi escrita para nossa correcção. A palavra de Deus quer, portanto, provocar-nos à conversão, e a urgência desse apelo assume em Cristo uma tonalidade particular: ele é a misericórdia do Pai; é mais uma ocasião oferecida ao homem para fazer penitência. O tempo do Cristo é o tempo da paciência do Pai. Deus não impõe prazo fixo. Um longo passado de esterilidade não impede, pois, a Deus, de dar mais uma oportunidade à figueira. Não se trata de fraqueza, mas de amor.
A conversão, acto comprometedor
O risco é de subestimar as exigências desse acto e limitá-lo a gestos que só nos atingem superficialmente, deixando intacto o nosso íntimo. Conversão é um exame profundo de si mesmo e da direcção que tem tomado a própria vida. Implica uma “mudança de direcção". É uma passagem da fé aceite passivamente, fé herdada, a uma fé activamente conquistada, como resposta ao dom de Deus e à intervenção do Espírito na nossa vida. É ruptura com uma mentalidade voltada para o pecado, para valores puramente humanos, para a auto-suficiência e o orgulho, a fim de aderir aos sinais de penitência não apenas rituais. Conversão é, sobretudo, adesão ao Reino que vem e compromisso com ele; é atitude de pobre, de pequenino, de servo, de filho; é autenticidade de comportamento contra qualquer desacordo entre fé e vida. Deus espera-nos nesse instante decisivo. Espera da nossa fé um acto viril, a plena e consciente aceitação do nosso destino: pede-nos que o assumamos livremente. Ninguém pode fazê-lo em nosso lugar, nem mesmo Deus.
A conversão, acto que custa
O caminho de conversão pode levar a opções dilacerantes e que transtornam. Há situações em que não é fácil agir ou é impossível voltar atrás. Há opções, como a de quem se divorciou, ou de quem rompeu com a Igreja ou com a vida religiosa, que não podem ser facilmente modificadas; um concubinato com filhos, que não se pode solucionar com o matrimónio; uma inesperada e não desejada maternidade; o não estar psicologicamente preparada para aceitar um filho; um viciado em drogas; uma grande injustiça sofrida; um comportamento habitual de desconfiança entre marido e mulher, entre país e filhos; o conflito entre famílias, uma vingança levada além das próprias intenções. No entanto, sempre e em todos os casos, é válido o apelo à conversão. É um caminho longo e difícil. Caminho que dilacera o coração e exige o respeito e o auxílio de toda a comunidade. Exige a compreensão dos que sabem que essas opções nem sempre dependem das pessoas, e que certas situações podem vir a ser a de qualquer um de nós. Cristo não permitiu que se arrancasse uma árvore aparentemente estéril. Um germe de vida nova é possível em toda Primavera.


LEITURA I – Ex 3, 1-8a.13-15

O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós

Continuando a apresentar, nesta subida quaresmal a caminho da Páscoa, certos momentos mais significativos da história da salvação, a primeira leitura deste domingo, em seguimento da dos domingos anteriores, dá-nos a célebre revelação de Deus a Moisés, a revelação do seu Nome, que define, tanto quanto isso é possível, Quem é Deus. Ao mesmo tempo, e na continuação dessa revelação, Deus chama Moisés e envia-o como instrumento de salvação para o seu povo escravizado no Egipto. Moisés será o chefe desse povo, o seu condutor através do deserto, e, como tal, figura de Cristo, o verdadeiro Pastor, guia e salvador do seu povo.

Leitura do Livro do Êxodo
“Naqueles dias, Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Ao levar o rebanho para além do deserto, chegou ao monte de Deus, o Horeb. Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor numa chama ardente, do meio de uma sarça. Moisés olhou para a sarça, que estava a arder, e viu que a sarça não se consumia. Então disse Moisés: «Vou aproximar-me, para ver tão assombroso espectáculo: por que motivo não se consome a sarça?». O Senhor viu que ele se aproximava para ver. Então Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés, Moisés!». Ele respondeu: «Aqui estou!» Continuou o Senhor: «Não te aproximes. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada». E acrescentou: «Eu sou o Deus de teus pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob». Então Moisés cobriu o rosto, com receio de olhar para Deus. Disse-lhe o Senhor: «Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel». Moisés disse a Deus: «Vou procurar os filhos de Israel e dizer-lhes: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas se me perguntarem qual é o seu nome, que hei-de responder-lhes?». Disse Deus a Moisés: «Eu sou ‘Aquele que sou’». E prosseguiu: «Assim falarás aos filhos de Israel: O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós». Deus disse ainda a Moisés: «Assim falarás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus de vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre, assim Me invocareis de geração em geração’».”
Palavra do Senhor

LEITURA II – 1 Cor 10, 1-6.10-12

A vida do povo com Moisés no deserto foi escrita para nos servir de exemplo

É o próprio Apóstolo que nos ensina a ler o Antigo Testamento: este anuncia as realidades do Novo Testamento, e serve, ao mesmo tempo, de exemplo e de guia ao povo da Nova Aliança, que já chegou “aos últimos tempos”, os tempos do Senhor Jesus Cristo, mas que ainda peregrina no deserto deste mundo a caminho da Terra Prometida. Não venha a suceder-nos a nós o que a muitos deles aconteceu: terem ficado pelo caminho.

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
“Irmãos: Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, receberam todos o baptismo de Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo. Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto. Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos o mal, como eles cobiçaram. Não murmureis, como alguns deles murmuraram, tendo perecido às mãos do Anjo exterminador. Tudo isto lhes sucedia para servir de exemplo e foi escrito para nos advertir, a nós que chegámos ao fim dos tempos. Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.”
Palavra do Senhor

EVANGELHO – Lc 13, 1-9

Se não vos arrependerdes, morrereis do mesmo modo

A primeira mensagem da Boa Nova que Jesus nos traz é o anúncio da aproximação do reino dos Céus, e consequentemente o convite a acolhê-lo com o coração voltado para ele e afastado do que lhe é contrário. Esta atitude é assim uma conversão, um regresso dos caminhos do pecado, uma atitude de arrependimento em relação ao passado, uma atitude penitencial. E esta atitude do coração é fundamental na Quaresma.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
“Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante. Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».”
Palavra da Salvação



sábado, 20 de fevereiro de 2016

DOMINGO, 21 DE FEVEREIRO DE 2016




(II Domingo da Quaresma, 21 de Fevereiro de 2016)

“A Glória do Filho de Deus”

Lucas apresenta Jesus rezando continuamente (5,16; 6,12; 9,18). Com isso o evangelista mostra que Jesus, através de sua palavra e acção, está a realizar a vontade do Pai. Na transfiguração aparece claramente esse sentido da oração. É a vontade do Pai que Jesus realize o êxodo, isto é, que ele realize, mediante a sua morte, ressurreição e ascensão, o acto supremo de libertação do povo, acabando com a opressão exercida pelo sistema implantado em Jerusalém. A transfiguração forma um fascinante contraste com a mensagem de sofrimento e humilhação. Como sempre acontece na tradição evangélica, é preciso manter unidos os dois extremos a fim de aceitar Jesus como ele é, Filho do Homem e Filho de Deus. Diversos detalhes lembram a experiência de Deus no Sinai: Moisés, o topo da montanha, a nuvem (Ex 24,9-19). Jesus é visto como Filho de Deus na sua glória celestial. O “aspecto do seu rosto mudou”, como ele mudará no seu corpo glorificado pela ressurreição (Mc 16,12). Com ele aparecem duas importantes figuras do Antigo Testamento, Moisés – o Legislador –, e Elias – o Profeta. Eles são um sinal de que Jesus satisfará as expectativas do povo hebreu. De facto, falam com ele sobre o seu êxodo, a sua morte, a ressurreição e, na teologia de Lucas, em especial a sua ascensão, que ia “realizar-se” em Jerusalém. O comportamento dos três discípulos íntimos desaponta-nos. Eles adormecem, como fará mais tarde num momento decisivo. Confrontando com a glória divina, Pedro não chama Jesus pelo título de “Senhor”, que o identifica adequadamente como o Salvador, a fala sem coerência sobre erguer tendas terrenas para os seres celestiais. A revelação culmina com a voz proveniente das nuvens, como no baptismo de Jesus. Ele é o Filho de Deus, escolhido por Deus (Sl 2,7; Is 42,1). A admoestação “ouvi-o!” salienta a importância daquilo que Jesus tem dito sobre a sua missão e a natureza do discipulado. A cena da Transfiguração é narrada pelos três evangelistas. A narrativa é feita num estilo apocalíptico, também presente nas narrativas do baptismo e da crucifixão de Jesus. Este estilo caracteriza-se por fenómenos espantosos, abalos da natureza, nuvens e voz celestial, que indicam a presença e comunicação de Deus. Com isto, na Transfiguração fica confirmada a filiação divina de Jesus e seu carácter de enviado para anunciar e instruir a todos. Moisés, representante da Lei, e Elias, representante do profetismo, haviam subido à montanha ao encontro de Deus. Agora, estando Jesus no alto da montanha a orar, Moisés e Elias vão a ele. O ponto alto é a voz que proclama: "Este é o meu filho, o Eleito. Escutai-o". Do ponto de vista de uma interpretação messiânica escatológica, a Transfiguração seria o prenúncio da ressurreição, como coroação dos sofrimentos de Jesus na sua Paixão. Sob outro ponto de vista, a Transfiguração revela a condição divina de Jesus de Nazaré, filho de Maria, na simplicidade de seu convívio entre nós. Os discípulos devem ver em Jesus a nova condição humana glorificada pela encarnação do Filho de Deus. Não se trata de esperar um messias poderoso, mas, sim, de reencontrar a dignidade e a grandeza da condição humana, em tudo que ela tem de justo, bom e verdadeiro. Ao entrarmos em comunhão de amor com Jesus e com o próximo, Deus é glorificado e é-nos comunicada a sua vida divina e eterna.


LEITURA I – Gen 15, 5-12.17-18

Deus estabelece a aliança com Abraão

Toda a história da salvação, desde o princípio até ao fim dos tempos, não é outra coisa senão o estabelecimento de uma aliança entre Deus e os homens, aliança que é oferta gratuita de Deus e que há-de ser aceitação humilde e agradecida da parte do homem. Mas há momentos mais significativos no estabelecimento desta aliança. Um deles, que é o seu ponto de partida mais explícito, é o da Aliança com Abraão, o crente por excelência, que, pela fé, se entrega totalmente à palavra de Deus. Nesta leitura, a aliança é significada por meio de um antigo rito: os animais oferecidos e esquartejados são o gesto do homem e o fogo que passa pelo meio deles é sinal da presença de Deus. Assim, de aliança em aliança, nos encaminhamos para a celebração da nova e eterna aliança na Páscoa do Senhor.

Leitura do Livro do Génesis
“Naqueles dias, Deus levou Abrão para fora de casa e disse-lhe: «Olha para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar». E acrescentou: «Assim será a tua descendência». Abraão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído como justiça. Disse-lhe Deus: «Eu sou o Senhor que te mandou sair de Ur dos caldeus, para te dar a posse desta terra». Abraão perguntou: «Senhor, meu Deus, como saberei que a vou possuir?». O Senhor respondeu-lhe: «Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho». Abraão foi buscar todos esses animais, cortou-os ao meio e pôs cada metade em frente da outra metade; mas não cortou as aves. Os abutres desceram sobre os cadáveres, mas Abraão pô-los em fuga. Ao pôr-do-sol, apoderou-se de Abraão um sono profundo, enquanto o assaltava um grande e escuro terror. Quando o sol desapareceu e caíram as trevas, um brasido fumegante e um archote de fogo passaram entre os animais cortados. Nesse dia, o Senhor estabeleceu com Abraão uma aliança, dizendo: «Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egipto até ao grande rio Eufrates».”
Palavra do Senhor

LEITURA II – Filip 3, 17 – 4,1

Cristo nos transformará à imagem do seu corpo glorioso

Cristo glorioso é o termo de toda a história humana, o objecto da esperança de toda a nossa vida e a meta para onde se orienta o nosso itinerário quaresmal. Ao tempo da ascese difícil e dolorosa na subida, que acompanha a vida que vivemos neste corpo mortal, responde a vida gloriosa, que já se manifesta no Corpo do Senhor transfigurado. Mas o caminho e a porta da glória passa pela Cruz.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
“Irmãos: Sede meus imitadores e ponde os olhos naqueles que procedem segundo o modelo que tendes em nós. Porque há muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição: têm por deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas. Mas a nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor.”
Palavra do Senhor

EVANGELHO – Lc 9, 28b-36

Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto

A Transfiguração aparece todos os anos no Segundo Domingo da Quaresma, como anúncio da Ressurreição, de modo que, ao longo deste tempo de preparação pascal, estejamos bem conscientes de que o termo, para onde caminhamos, é Jesus ressuscitado. A Transfiguração, lida neste Domingo depois do Domingo da Tentação, faz com ela uma espécie de preâmbulo, antes de chegarmos à parte central da Quaresma. Mortificação e glorificação, tentação e glória, morte e ressurreição, são de facto, a síntese do mistério pascal que vamos celebrar.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
“Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.”
Palavra da Salvação



sábado, 13 de fevereiro de 2016

DOMINGO 14 DE FEVEREIRO DE 2016




(I Domingo da Quaresma, 14 de Fevereiro de 2016)

“Jesus supera as tentações”

A tentação no deserto resume os conflitos que Jesus vai experimentar em toda a sua vida. Deverá enfrentar o representante das forças do mal que escravizam os homens. E Deus sustentá-lo-á nessa luta. Mateus pormenoriza, salientando três tentações. Nelas, Jesus é tentado a falsificar a própria missão, realizando uma actividade que tenda só a satisfazer as necessidades imediatas, procurar o prestígio e ambicionar o poder e as riquezas. Jesus, porém, resiste a essas tentações. O seu projecto de justiça é transformar as estruturas segundo a vontade de Deus (palavra que sai da boca de Deus), não pondo Deus ao seu próprio serviço ou interesse (Não tente o Senhor seu Deus), e não universalizando coisas que geram opressão e exploração sobre os homens, criando ídolos (Você adorará ao Senhor seu Deus...). Lucas inverte a ordem das duas últimas tentações, porque em Jerusalém (Templo) é onde acontecerá a suprema tentação e a vitória final sobre ela. Na tradição do Êxodo, no Primeiro Testamento, o deserto é o lugar de purificação e definição, num processo de mudança de vida. As condições ambientais de despojamento, próprias do deserto, são propícias à reformulação de valores pessoais ou comunitários, previamente assumidos. Assim, o povo hebreu, conforme a tradição, ao sair do Egipto, permaneceu quarenta anos no deserto, que serviram como preparação para as novas condições de vida na "terra prometida", que conquistaram. Os três evangelistas sinópticos narram que Jesus, após receber o baptismo de João, passou também "quarenta dias" no deserto, como um tempo de provação. O agente da provação é o diabo, que propõe a Jesus, sucessivamente, que transforme pedras em pães, que se prostre diante dele e que se lance do alto do Templo. Estas tentações delineiam o perfil do messias glorioso: promessa demagógica de pão para todos, assumir o poder sobre todos os reinos do mundo e ostentar-se como o protegido pelo poder divino. Assim, o evangelista associa tal messias ao projecto do diabo. E a "tentação" de Jesus exprime um momento de decisão pelo início de seu ministério, optando pelas suas linhas mestras: Jesus vem para instaurar o Reino da partilha, da humildade e do serviço, com a comunicação do amor de Deus a todos os povos, sem exclusões. A Quaresma é o tempo propício a um maior amadurecimento da fé em Jesus, que toca os corações pela sua palavra. É a palavra humilde e amorosa que tem a força transformadora, revelando o "Senhor, que é generoso para com todos os que o invocam", e renovando a vida no mundo.


LEITURA I – Deut 26, 4-10

A profissão de fé do povo eleito

Através da oferta dos primeiros frutos da terra, o Povo eleito reconhece que tudo vem de Deus: a terra que cultiva, assim como a energia para a cultivar. Com este gesto, o homem vencia a tentação de se encerrar no mundo material, afirmando o primado do espiritual: «nem só de pão vive o homem».
Mas este gesto tem uma dimensão religiosa mais profunda. Na verdade, a oferta das primícias a Deus, por intermédio do sacerdote, era acompanhada duma autêntica profissão de fé, em que se recapitulavam os acontecimentos mais importantes da História da Salvação.

Leitura do Livro do Deuteronómio
“Moisés falou ao povo, dizendo: «O sacerdote receberá da tua mão as primícias dos frutos da terra e colocá-las-á diante do altar do Senhor teu Deus. E diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egipto com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro até se tornar uma nação grande, forte e numerosa. Mas os egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos e sujeitaram-nos a dura escravidão. Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egipto com mão poderosa e braço estendido, espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios. Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra, uma terra onde corre leite e mel. E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra que me destes, Senhor’. Então colocarás diante do Senhor teu Deus as primícias dos frutos da terra e te prostrarás diante do Senhor teu Deus».”
Palavra do Senhor

LEITURA II – Rom 10, 8-13

Profissão de fé dos que crêem em Cristo

A fé do Povo Eleito baseava-se em factos concretos, pelos quais Deus manifestava o Seu amor e a Sua fidelidade.
A fé cristã consiste na adesão a uma pessoa, Jesus Cristo, Ressuscitado, e, por isso, Senhor. Com efeito, todas as maravilhosas intervenções salvíficas de Deus têm o seu ponto culminante no Mistério Pascal de Cristo.
Deste modo, «a fé é crer em Alguém e não em alguma coisa, o que significa abrir um crédito, que me põe à disposição do Único, em quem creio» (Gabriel Marcel).
Só esta fé em Cristo Ressuscitado, proclamada com alegria e vivida até às últimas consequências, nos dá a salvação.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
“Irmãos: Que diz a Escritura? «A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração». Esta é a palavra da fé que nós pregamos. Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. Pois com o coração se acredita para obter a justiça e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação. Na verdade, a Escritura diz: «Todo aquele que acreditar no Senhor não será confundido». Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam. Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.”
Palavra do Senhor

EVANGELHO – Lc 4, 1-13

Esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado

A tentação no Deserto não foi um acontecimento isolado. Foi o começo duma luta contra o «príncipe deste mundo», que se prolongará por toda a vida, atingindo o auge com a Morte em Jerusalém.
Como a de Jesus, a vida do cristão conhece também a prova da tentação. O Baptismo, que nos faz filhos de Deus, não nos introduz num estado de segurança. É antes o começo de dura caminhada, no decorrer da qual a nossa fidelidade a Deus é, muitas vezes, posta à prova.
Em todas as circunstâncias, porém, o cristão poderá ser invencível. Cristo Ressuscitado, que venceu, definitivamente, o mal, ficou na Eucaristia, para nos comunicar esse poder.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
“Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O Diabo disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O Diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.”
Palavra da Salvação



sábado, 6 de fevereiro de 2016

DOMINGO 7 DE FEVEREIRO DE 2016




(Domingo, 7 de Fevereiro de 2016)

“Vida missionária”

Para anunciar Deus é preciso tê-Lo “conhecido”. Para conhecer Deus é necessário que Ele “se revele”. Não podemos atingir Deus com os nossos silogismos e encerrá-Lo nos nossos raciocínios. A revelação de Deus é um acto soberanamente livre, é iniciativa sua – totalmente gratuita. O homem não tem poder sobre Deus. Ora, o profeta não anuncia uma doutrina abstracta, meramente humana, mas o Deus vivo; ele só é profeta se Deus se lhe revela, se o chama, se o envia. Revelação, vocação e missão estão estreitamente unidas.

A cena é simbólica. Jesus chama os seus primeiros discípulos, mostrando-lhes qual a missão que lhes era reservada: fazer que os homens participem da libertação trazida por Jesus e que só pode realizar-se no seguimento dele, mediante a união com ele e a sua missão. O convite ao seguimento é exigente: é preciso “deixar tudo”, para que nada impeça o discípulo de anunciar a Boa Notícia do Reino. A cena da pesca milagrosa ilustra a vida missionária dos discípulos do Reino. Tudo começou com um encontro fortuito com Jesus. Comprimido pelas multidões ansiosas para ouvir a Palavra de Deus, o Mestre pediu a Simão um favor: levá-lo na sua barca um pouco para largo do lago de Genesaré, não muito longe da margem, para que pudesse falar às multidões. O seu pedido foi prontamente atendido. Quando concluiu a pregação, deu a Simão uma ordem inesperada: conduzir o barco para águas mais profundas e lançar a rede. Simão tinha trabalhado, em vão, toda a noite; mas, por obediência à ordem do Mestre, lançou novamente a rede. E disto resultou uma pescaria espectacular. Entretanto, o facto mais notável foi Simão ter tido a oportunidade de reconhecer Jesus como Messias. O espanto que se apoderou dele e dos seus companheiros foi semelhante ao que, no Antigo Testamento, acontecia nas teofanias, quando pessoas achavam que iriam morrer, caso vissem a Deus. Simão reconheceu em Jesus a manifestação da divindade. E Jesus exortou-o a não ter medo, pois a sua vida havia sido transformada. Doravante, teria outra preocupação, não mais com peixes, mas com pessoas humanas. Simão aceitou a tarefa de ser pescador de homens e pôs a seguir Jesus. Começava para ele uma nova vida. O centro desta narrativa é o anúncio de Jesus e a escolha dos seus colaboradores. A multidão comprime-se para ouvir a sua palavra, Jesus sobe ao barco de Simão (Pedro) e daí ensina estas multidões. A pesca imprevista e abundante (acentuada desmedidamente) sob a orientação de Jesus é uma confirmação da força da sua palavra e da confiança que se deve ter nesta palavra. Jesus chama os discípulos como cooperadores na sua missão. Os discípulos, com desprendimento, dispõem-se a seguir Jesus. O sucesso da missão implica o abandono e a docilidade à palavra de Jesus.


LEITURA I – Is 6, 1-2a.3-8

Eis-me aqui: podeis enviar-me

Esta leitura apresenta a vocação de Isaías e a sua missão, para introduzir a missão dos Apóstolos, de que falará o Evangelho. A vocação e a missão vêm de Deus, são dom seu. Em presença de tais dons, ao homem compete simplesmente responder e deixar-se enviar, porque a obra a que é enviado é toda de Deus. Foi por isso que o profeta começou por sentir-se envolvido em sinais da presença e da santidade de Deus. E ao reconhecer que Deus o chamava, respondeu a esse chamamento e deixou-se enviar para a missão a que Deus o destinava.

Leitura do Livro de Isaías
“No ano em que morreu Ozias, rei de Judá, vi o Senhor, sentado num trono alto e sublime; a fímbria do seu manto enchia o templo. À sua volta estavam serafins de pé, que tinham seis asas cada um e clamavam alternadamente, dizendo: «Santo, santo, santo é o Senhor do Universo. A sua glória enche toda a terra!». Com estes brados as portas oscilavam nos seus gonzos e o templo enchia-se de fumo. Então exclamei: «Ai de mim, que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, moro no meio de um povo de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei, Senhor do Universo». Um dos serafins voou ao meu encontro, tendo na mão um carvão ardente que tirara do altar com uma tenaz. Tocou-me com ele na boca e disse-me: «Isto tocou os teus lábios: desapareceu o teu pecado, foi perdoada a tua culpa». Ouvi então a voz do Senhor, que dizia: «Quem enviarei? Quem irá por nós?». Eu respondi: «Eis-me aqui: podeis enviar-me».”
Palavra do Senhor

LEITURA II – 1 Cor 15, 1-11

É assim que pregamos e foi assim que acreditastes

Os cristãos de Corinto, cidade grega de ambiente pagão, deviam sentir a atitude negativa dos grupos no meio dos quais viviam, em relação à ressurreição dos mortos, que até os próprios Judeus só lentamente foram admitindo. Para os cristãos, a morte e a ressurreição de Cristo constitui a base e o fundamento da sua fé. Ao afirmar o mistério pascal de Cristo, S. Paulo apresenta o núcleo central da profissão de fé da Igreja, o “Credo”.

Leitura da primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
“Recordo-vos, irmãos, o Evangelho que vos anunciei e que recebestes, no qual permaneceis e pelo qual sereis salvos, se o conservais como eu vo-lo anunciei; aliás teríeis abraçado a fé em vão. Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maior parte ainda vive, enquanto alguns já faleceram. Posteriormente apareceu a Tiago e depois a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim, como o abortivo. Porque eu sou o menor dos Apóstolos e não sou digno de ser chamado Apóstolo, por ter perseguido a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou aquilo que sou e a graça que Ele me deu não foi inútil. Pelo contrário, tenho trabalhado mais que todos eles, não eu, mas a graça de Deus, que está comigo. Por conseguinte, tanto eu como eles, é assim que pregamos; e foi assim que vós acreditastes.”
Palavra do Senhor

EVANGELHO – Lc 5, 1-11

Deixaram tudo e seguiram Jesus

A disponibilidade verificada no profeta Isaías, vemo-la agora nos Apóstolos. É o Senhor que os envia, mas eles, por seu lado, deixam-se enviar. A obra de Deus está também nas mãos dos homens, porque Deus os quer associar a Si na obra de salvação. É, no fundo, a lei que nasce do mistério da Encarnação: Deus no homem e o homem em Deus. E a única atitude possível para o homem a quem Deus chama e envia é responder como Isaías: “Eis-me aqui”, e como Pedro: “Já que o dizes, lançarei as redes”.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
“Naquele tempo, estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus.”
Palavra da Salvação



sábado, 30 de janeiro de 2016

DOMINGO 31 DE JANEIRO DE 2016




(Domingo, 31 de Janeiro de 2016)

Um projecto de vida

Colocada no início da vida pública de Jesus, esta passagem constitui, conforme Lucas, o programa de toda a actividade de Jesus. Is 61,1-2 anunciara que o Messias iria realizar a missão libertadora dos pobres e oprimidos. Jesus aplica a passagem a si mesmo, assumindo-a no hoje concreto em que se encontra. No ano da graça eram perdoadas todas as dívidas e se redistribuíam fraternalmente todas as terras e propriedades: Jesus encaminha a humanidade para uma situação de reconciliação e partilha, que tornam possíveis a igualdade, a fraternidade e a comunhão. A dúvida e a rejeição de Jesus por parte dos seus compatriotas fazem prever a hostilidade e a rejeição de toda a actividade de Jesus por parte de todo o seu povo. No entanto, Jesus prossegue o seu caminho, para construir a nova história que engloba toda a humanidade. As profecias do Antigo Testamento ajudaram Jesus a compreender a sua identidade e missão. Um texto do profeta Isaías foi-lhe extremamente útil. Nesse texto encontramos o monólogo de alguém que voltara do exílio babilónico e expressava a consciência da sua missão: reorganizar o povo, após a sua total destruição às mãos de Nabucodonosor. Isaías tinha consciência de ser um profeta, nos moldes do Servo de Deus, cuja missão era a de infundir ânimo e esperança no povo, descortinando-lhe horizontes, e trazendo-lhe libertação. Foi esse o caminho que Jesus seguiu. O evento do seu baptismo constituiu-se numa verdadeira consagração por parte do Pai para a missão que estava prestes a ser iniciada. Os destinatários preferenciais da sua acção missionária foram os pobres, os humilhados e injustiçados, toda a sorte de prisioneiros e oprimidos, as vítimas da cegueira física e espiritual. A sua acção, por ser ele o Filho de Deus, era portadora de alegria semelhante à do ano jubilar, quando todas as dívidas e servidões eram abolidas e as pessoas tinham, novamente, a sua dignidade reconhecida. O texto profético era um resumo perfeito do projecto de vida de Jesus. Não possuímos informações a respeito do que se passou com o profeta vétero-testamentário. Com Jesus, sim. A história confirmou que nele se cumpriu plenamente o que o antigo profeta havia falado de si mesmo. Lucas, no seu evangelho, apresenta às suas comunidades, e a nós, o início do ministério de Jesus na Galileia, diferenciado da prática do judaísmo. Colocando a sinagoga como um espaço a ser superado, Lucas apresenta Jesus cheio do Espírito, profético, identificado com a vocação de Isaías, no texto em que lê. A missão de Jesus é a nossa missão: anunciar o evangelho aos pobres, proclamar e envolver-se na libertação dos aprisionados, dos oprimidos, dos explorados e dos excluídos; proclamar a Palavra que ilumine os que não vêem a realidade, desperte os acomodados e indiferentes, que fortaleça os abatidos e desesperançados.


LEITURA I – Jer 1, 4-5.17-19

Eu te constituí profeta entre as nações

Desde o dia da sua vocação, Jeremias, que os seus compatriotas hão-de acolher tão mal, é destinado por Deus para levar a palavra divina até aos pagãos. A palavra de Deus vem ao mundo para chegar a toda a Terra; e deve partir do meio do povo que Ele mesmo acolheu, mas que tantas vezes não é o que Lhe dá melhor acolhimento.

Leitura do Livro de Jeremias
“No tempo de Josias, rei de Judá, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações. Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles, senão serei Eu que te farei temer a sua presença. Hoje mesmo faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e dos seus chefes, diante dos sacerdotes e do povo da terra. Eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar».”
Palavra do Senhor

LEITURA II – 1 Cor 12, 31 – 13, 13

Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade

No Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, há grande diversidade de dons e graças. Depois de se referir a essa variedade, que enriquece o corpo da Igreja, o Apóstolo aponta o que é carisma de todos os cristãos e a que todos são chamados, embora cada um em grau diferente: a caridade. Esta leitura é um verdadeiro hino à caridade.

Leitura da primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
“Irmãos: Aspirai com ardor aos dons espirituais mais elevados. Vou mostrar-vos um caminho de perfeição que ultrapassa tudo: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa ou como címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu possua a plenitude da fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que distribua todos os meus bens aos famintos e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita. A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O dom da profecia acabará, o dom das línguas há-de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca. De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil. Agora vemos como num espelho e de maneira confusa, depois, veremos face a face. Agora, conheço de maneira imperfeita, depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.”
Palavra do Senhor

EVANGELHO – Lc 4, 21-30

Como Elias e Eliseu, Jesus não é enviado somente aos judeus

Como Jeremias, também Jesus foi mal recebido pelos seus, e, deixando Nazaré, a terra “onde Se tinha criado”, partiu para outros lugares, onde a palavra de Deus pudesse encontrar quem melhor a escutasse. Deus liga-Se a determinadas circunstâncias humanas e temporais; mas a sua Palavra vem ao mundo para ser levada até aos confins da Terra. Ela não veio para dividir, mas para unir; dividir, só a verdade do erro, o bem do mal, a luz das trevas, porque Deus é Luz.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
“Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?». Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.”
Palavra da Salvação



sábado, 23 de janeiro de 2016

DOMINGO 24 DE JANEIRO DE 2016




(Domingo, 24 de Janeiro de 2016)

APROFUNDANDO A PALAVRA

Uma comunidade de escuta
O cristianismo é revelação; Deus revela-se e comunica-se ao homem histórico. Essa revelação-comunhão torna-se presente na história através do sinal da Palavra (palavra e gesto) cujo cerne é Jesus de Nazaré, a Palavra de Deus viva encamada. Não é tanto o esforço que o homem faz para atingir e conhecer Deus, quanto o acto de Deus que se dá e se une ao homem.
Deus revela-se e comunica-se ao homem. O Deus de Abraão, de Isaac, de Jesus Cristo não é um Deus imposto, não é um Deus que se revela nos fenómenos naturais, mas na história dos homens, revela-se e comunica-se de modo perfeito e definitivo no homem Jesus.
A Bíblia é a literatura de um povo; nela estão reunidas as vicissitudes, os sofrimentos, as angústias, as alegrias e as esperanças da história de um povo; as reflexões dos sábios, os líricos, os hinos dos poetas, as canções populares, até a vida das primitivas comunidades cristãs. Tudo isto é certamente “revelação do homem”, mas ao mesmo tempo “revelação de Deus”. A história passada é lida como palavra de Deus para que, à sua luz, possamos ler a nossa história, a nossa vida, e descobrir e encontrar Deus nas vicissitudes do nosso quotidiano.

Palavra de Deus e comunidade
A palavra de Deus, porém, longe de alienar o homem, procura promover uma fidelidade radical à condição humana.
A 1.ª leitura manifesta-nos a relação entre a palavra de Deus, tal como está contida na Bíblia, e a comunidade. O gesto de Neemias diz-nos que o povo de Deus, para se reconstruir depois da ruína do exílio, procura a sua mais profunda identidade e unidade na palavra de Deus.
Hoje também (e sempre) a Igreja encontra a sua identidade na palavra de Cristo. Sem a palavra de Cristo ela não é “nada”. A Igreja está sempre em religiosa escuta da palavra de Deus; nela é congregada e dela depende totalmente; por ela deve continuamente deixar-se “julgar” e contestar.
Por outro lado, só na Igreja a palavra de Deus ressoa em toda a sua verdade; e a sua razão de ser está em anunciar essa palavra e testemunhá-la como fiel discípula de Cristo, plenitude de toda a revelação. Portanto, a Igreja não proclama uma abstracta ideologia humana, mas a Palavra que se fez carne em Cristo, Filho de Deus, Senhor e Redentor de todos os homens.
O Cristo, cabeça da Igreja (2.ª leitura) é o Cristo Senhor, o Cristo-Palavra (evangelho). É ele que unifica a multiplicidade e diversidade dos membros num só corpo; é ele que, unindo com a sua palavra viva as mentes e corações, cria a unidade da fé.
A leitura evangélica revela-nos a actualidade da palavra de Deus e o modo cristão de lê-la. “Hoje cumpriu-se esta escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21).

A palavra de Deus realiza-se hoje
Cada página do evangelho não é palavra morta, mas palavra viva, que Deus nos diz e deve realizar-se hoje. O evangelho não narra apenas a vida de Jesus, mas também a minha vida. O evangelho contém-nos, envolve-nos. Por isto, a liturgia da Palavra não é uma simples lição de moral, nem a afirmação da esperança escatológica recebida dos profetas; mas proclama o cumprimento do desígnio do Pai no hoje da vida e da assembleia. Não se contempla aí um passado desaparecido, nem se imagina um futuro extraordinário, mas vive-se o tempo presente como lugar privilegiado da vinda do Senhor. Portanto, não se procura aplicar aos factos vividos pelos membros da assembleia um ou outro texto inspirado, mas indicar que o acontecimento vivido hoje pelos homens e pelos cristãos revela o desígnio de Deus que se realiza em Cristo.
O Antigo e o Novo Testamento tornam-se actuais, próximos, se não ficarmos presos à letra morta. Mais cedo ou mais tarde descobriremos que podemos dizer a cada página: “Aqui se fala de nós. Eu sou Adão. Nós somos os apóstolos no mar. Encontramo-nos precisamente como Jesus no caminho do Calvário e da ressurreição. Assim, através da palavra de Deus, vamos lentamente descobrindo como é a nossa vida aos olhos dele, isto é, na sua dimensão profunda...”. A palavra que vem de Deus possui a força e a eficácia de Deus. Interpela, provoca, consola, cria comunhão e salva, das mais diversas maneiras, conforme os momentos e as formas; todo acto de pregação é glorificação de Deus e acontecimento sociológico para os homens. Hoje, também a Palavra quer tornar-se carne para nossa vida.


LEITURA I – Ne 8, 2-4a.5-6.8-10

Liam o Livro da Lei e explicavam o seu sentido

A proclamação da palavra de Deus, que Jesus faz na sinagoga de Nazaré, como se irá ouvir na leitura do Evangelho de hoje, aparece já no Antigo Testamento, cinco séculos antes de Cristo, como se vê por esta leitura. Podemos observar o cuidado na proclamação, a atenção na assembleia e como já então o povo aclamava a palavra escutada, tal como a celebração litúrgica actual continua a prever. É com esta leitura e o salmo que se lhe segue que se inaugura a “mesa da palavra”, o ambão, no dia da Dedicação de uma nova igreja.

Leitura do Livro de Neemias
“Naqueles dias, o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. Desde a aurora até ao meio dia, fez a leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a leitura do Livro da Lei. O escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, erguendo as mãos: «Ámen! Ámen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor. Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –. Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».”
Palavra do Senhor

LEITURA II – 1 Cor 12, 12-30

Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um na sua parte

Com esta comparação do corpo, S. Paulo quer fazer-nos compreender que, na Igreja, há muitos campos de acção, diferentes uns dos outros, mas que isso não deve ser causa de divisão, mas, ao contrário, de unidade, porque todos esses serviços são fruto do mesmo e único Espírito.

Leitura da primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
“Irmãos: Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos. Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados. Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros. Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele. Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte. Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar?”
Palavra do Senhor

EVANGELHO – Lc 1, 1-4; 4, 14-21

Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura

Esta leitura começa com a introdução em que o evangelista expõe o método que seguiu para se informar sobre o Evangelho que vai escrever, e faz a dedicatória do mesmo a um tal Teófilo, nome que significa “Amigo de Deus”. Depois, começa a sua narração, referindo o princípio do ministério público de Jesus. A cena passa-se na sinagoga de Nazaré, numa celebração de Sábado. É digno de nota este facto: Jesus inicia o seu ministério numa celebração, e nela Se apresenta como sendo Aquele a quem a leitura se refere. De facto, o Senhor é Aquele a quem toda a Sagrada Escritura se refere e Aquele que, em cada celebração litúrgica, é significado e tornado presente pela própria celebração, pois que “é Ele quem fala quando na Igreja se lêem as Sagradas escrituras” (Concílio SC 7).

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
“Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado. Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».”
Palavra da Salvação



sábado, 16 de janeiro de 2016

A AUTO-REVELAÇÃO DE JESUS




(Domingo, 17 de Janeiro de 2016)

APROFUNDANDO A PALAVRA

A nova comunidade nasce na fé
Jesus é homem como nós; tem amigos e aceita o convite para um casamento, com a sua mãe e os seus primeiros discípulos. Esta semelhança torna-o “acessível”, “conhecível” por nós. Mas Cristo é também “mistério” se não se revela, se não manifesta sua identidade. Revelação que fará pouco a pouco, com sábia pedagogia.

Tudo começa com uma festa de núpcias...
Repensando, à luz do Espírito, em tantos factos em que estivera envolvido, João descobre que Jesus começou a revelar a própria identidade em Caná; verá culminar esta revelação na morte, a hora de Jesus. Do mesmo modo, a adesão dos discípulos a Cristo tem uma história; a fé começa a esboçar-se exactamente em Caná. É ai que nasce um novo tipo de relação com Cristo e, em consequência, novas relações entre eles. O laço que deles faz uma comunidade é a fé comum em Jesus. Cristo começa a revelar a sua identidade não de modo verbal, explícito, como uma fórmula dogmática, mas através de uma linguagem dos gestos.

... e termina nas núpcias eternas
Os profetas haviam descrito as relações entre o homem e Deus em termos de relação nupcial. O povo de Israel, esposa escolhida por Deus, foi muitas vezes infiel e teve que ser purificado através de duras provas como o exílio. Nestes momentos de provação e abandono, o profeta anuncia a fidelidade de Deus, que ama apesar de tudo, virá o momento em que Deus se unirá indissoluvelmente e para sempre à humanidade. Esta união definitiva será Jesus. Caná é vista por João como o banquete nupcial da união definitiva do homem com Deus, a inauguração dos tempos messiânicos. O sinal de Caná revela a glória de Jesus, desvela o seu ser divino.

Caná, início da Igreja, como comunidade de fé
Paralelamente à primeira revelação de Jesus se dá a passagem do antigo para o novo povo de Deus, não mais fundado sobre a carne e o sangue, mas sobre a fé em Jesus. Este é o primeiro dos sinais feitos por Jesus; sinal visível, pelo qual manifesta sua glória e os discípulos crêem nele.
Este grupo dos que crêem em Jesus, nascido em Caná, se tornará a Igreja viva. Deus cumula de dons naturais e sobrenaturais os membros da comunidade.
Esses dons não devem ser um privilégio pessoal, um meio para a auto-afirmação, mas um serviço aos outros. Devem ser usados com critério e para o bem comum. São fruto não das forças humanas, mas do Espírito. Essa revelação do Cristo implica questionamento também para nós. Quais são os sinais pelos quais pode um homem de hoje “conhecer” o Cristo? A fé de Maria leva Jesus a “manifestar-se”. Os discípulos crêem em Jesus; chegam, de certo modo, até à fé de Maria.
Não é esta também a missão da Igreja hoje, a missão de cada cristão, comunicar a fé?
Hoje, a humanidade também está em situação de exílio: guerras, medo, justiças... De onde virá a salvação? Unicamente do esforço humano, que é necessário, ou também da aliança com Deus?
Nesta obra de salvação divino-humana, a Igreja e todos os que crêem têm obrigação de pôr ao serviço tudo o que são e o que têm. A pequena Igreja, em que estamos inseridos, aguarda talvez o momento de estar “unida” por uma fé mais viva no Cristo que se revela.
“A fé é virtude, atitude habitual da alma, inclinação permanente a julgar, agir segundo o pensamento do Cristo, com espontaneidade e vigor, como convém a homens ‘justificados’. Com a graça do Espírito Santo, cresce a virtude da fé, se a mensagem cristã é entendida e assimilada como ‘boa nova’, no sentido salvífico que tem para a vida quotidiana do homem”.


LEITURA I – Is. 62, 1-5

A esposa é a alegria do marido

O amor entre Deus e o seu povo é frequentemente comparado, na Sagrada Escritura, ao amor dos esposos. Jerusalém é a imagem de todo o povo de Deus, é a imagem antecipada da própria Igreja. Pelo amor que lhe tem, o Senhor fará dela sua esposa; será essa a glória de Jerusalém, da Igreja, a Esposa de Cristo. Com esta leitura prepara-se a compreensão da leitura do Evangelho deste dia, onde se lê o “sinal” das Bodas de Caná.

Leitura do Livro de Isaías
“Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta», mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.”
Palavra do Senhor

LEITURA II – Cor 12, 4-11

Um só e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um conforme Lhe agrada

Começamos hoje a leitura da terceira parte desta epístola, de que se leu o ano passado a segunda parte. Por ser bastante longa, é assim distribuída por mais de um ano. Ao dirigir-se a uma comunidade onde eram frequentes as divisões, o Apóstolo apela para a unidade, fruto da acção do Espírito de Deus, que é a fonte comum de todos os dons que existem na Igreja. Assim, a unidade na Igreja não provém de qualquer motivo humano, mas do facto de todos os dons que nela existem procederem do mesmo e único Espírito.

Leitura da primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
“Irmãos: Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. A um o Espírito dá a mensagem da sabedoria, a outro a mensagem da ciência, segundo o mesmo Espírito. É um só e o mesmo Espírito que dá a um o dom da fé, a outro o poder de curar; a um dá o poder de fazer milagres, a outro o de falar em nome de Deus; a um dá o discernimento dos espíritos, a outro o de falar diversas línguas, a outro o dom de as interpretar. Mas é um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada.”
Palavra do Senhor

EVANGELHO – Jo 2, 1-11

O primeiro milagre de Jesus

O milagre que Jesus fez nas Bodas de Caná pertence ainda ao ciclo da Epifania. De facto, por meio dele, o Senhor Se manifestou. A transformação da água em vinho e o facto de tal ter acontecido num banquete de núpcias e ainda o chamar-lhe o Evangelho um “sinal” leva-nos a perscrutar o mistério desta epifania ou manifestação do Senhor. Aquela não era ainda a hora de Jesus, que havia de chegar na hora da Cruz; mas aquele “sinal” apontava já para lá, para a hora das núpcias do Cordeiro, a hora do sacrifício que sela a Aliança, nova e definitiva, entre Deus e os homens, pelo Sangue de Jesus.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
“Naquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.”
Palavra da Salvação