segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Contributo para conhecer melhor… – A BÍBLIA



A Sagrada Escritura é o conjunto dos livros escritos por inspiração divina, nos quais Deus se revela a si mesmo e nos dá a conhecer o mistério da sua vontade. Divide-se em duas grandes secções: Antigo Testamento, que contém a revelação feita por Deus antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo ao mundo; Novo Testamento, que contém a revelação feita directamente por Jesus Cristo e transmitida pelos Apóstolos e outros autores sagrados.

Deus falou aos homens através de outros homens por Ele escolhidos para esse fim, mas sobretudo por meio de seu Filho, Jesus Cristo (Heb 1,1-2). Desse modo, a Palavra de Deus tornou-se linguagem humana sem deixar de ser Palavra de Deus, assim como o Filho de Deus se fez homem sem deixar de ser Deus; e sujeitou-se, tal como Ele, às limitações e condicionamentos da palavra humana, excepto no erro formal. Tais condicionamentos são:
Condicionamentos de tempo Os livros da Bíblia são fruto do seu tempo. Por isso, se quisermos entender a mensagem de Deus, temos de conhecer o tempo e as circunstâncias históricas em que foi escrito cada um deles.
Condicionamentos de espaço Os livros da Bíblia nasceram em vários lugares geográficos, cada qual com o seu ambiente próprio: uns na Palestina, outros no mundo helénico e outros no Império Romano. E um livro também é filho do meio em que nasceu.
Condicionamentos de raça Os livros da Bíblia procedem quase todos do povo semita, mais concretamente do povo judeu, que tem um modo de pensar e de se exprimir muito diferente do nosso. É preciso conhecê-lo, para entender a Palavra de Deus.
Condicionamentos de cultura Os livros da Bíblia são obra de muitos autores com mentalidade e cultura diferentes, às vezes distanciados entre si por vários séculos. Tudo isso marcou a Bíblia e deve ser tido em conta, pois os autores sagrados, embora escrevessem sob inspiração de Deus, não foram privados da sua personalidade.

A Palavra de Deus, no Antigo Testamento, revelou-se através da Tradição e da Sagrada Escritura. Com Cristo, Palavra em pessoa, começa uma nova Revelação: o Evangelho. Os transmissores desta nova Palavra são os Apóstolos, que dão origem à Tradição Apostólica. Os Evangelistas, mais tarde, inspirados pelo Espírito Santo, recolhem e fixam essa Tradição por escrito, dando assim origem à Sagrada Escritura do Novo Testamento.
Por isso, diz o concílio Vaticano II: “A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando elas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim.” (Dei Verbum, 9)

A Inspiração é o que caracteriza e essencialmente distingue a Bíblia de todos os outros livros humanos. Acreditar na Inspiração da Sagrada Escritura foi sempre um dogma de fé para os Judeus e para a Igreja. Os Judeus dividiam a Bíblia em três partes: a Lei (Torá), que era considerada a Palavra de Deus por excelência; os Profetas (Nebiîm), que falaram em nome de Deus; e os Escritos (Ketubîm), formando todos juntos os «Livros santos» (1 Mac 12,9). Jesus Cristo e os Apóstolos citaram-nos como Palavra de Deus (Act 1,16; 4,25). Mas, São Paulo e São Pedro é que nos transmitem os dois textos clássicos sobre esta verdade. Paulo diz: «Toda a Escritura é divinamente inspirada» (theopneustos: 2 Tm 3,14-17); e Pedro afirma: «Mas sabei, antes de mais, que nenhuma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo, é que os homens santos falaram em nome de Deus.» (2 Pe 1,21)
Os Santos Padres também são unânimes em afirmar que Deus é o autor da Sagrada Escritura e que o hagiógrafo é instrumento de Deus. E a Igreja manifestou a sua fé nesta verdade em vários concílios e documentos. O último e o mais expressivo é a constituição dogmática Dei Verbum (DV), do concílio Vaticano II, que diz: “As coisas reveladas por Deus que se encontram escritas na Sagrada Escritura foram consignadas por inspiração do Espírito Santo.” E mais adiante, falando da natureza desta inspiração, acrescenta: “porque escritos por inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor e, como tais, foram confiados à Igreja. Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades para que, agindo Deus neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria.” Portanto, segundo a constituição Dei Verbum, os livros sagrados são produto da acção transcendente de Deus que suscita, dirige e envolve inteiramente a actividade humana, agindo em constante coordenação com ela.
Esta acção divina estendeu-se a todas as faculdades e actos do homem que concorreram para a produção dos livros santos, e abrange todas as partes dos livros e todos os géneros literários que neles se encontram. No entanto, longe de tornar o hagiógrafo passivo, tal acção favorece a sua livre espontaneidade; porque o homem é tanto mais livre e activo quanto mais o Espírito Santo o acompanha. Deus, quando actua no homem, fá-lo sempre com suma delicadeza, respeitando a sua liberdade e a sua maneira de ser, mas valorizando-as e potenciando-as. A Bíblia não é, pois, fruto de um ditado mecânico, mas uma obra em que Deus e o homem intervêm: Deus com as suas perfeições infinitas, e o homem com as suas faculdades e conforme a sua capacidade. Por isso, os dois são verdadeiros autores dos livros sagrados.

Diz também a Dei Verbum: “E assim como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve aceitar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, causa da nossa salvação, quis que fosse consignada nas Sagradas Letras.” (DV, 11)
A verdade da Bíblia é a consequência imediata da Inspiração. Com efeito, se Deus é o autor da Bíblia, se toda ela é obra do Espírito Santo, não pode conter qualquer afirmação que vá contra a verdade e a santidade do mesmo Deus. No entanto, não podemos buscar na Bíblia qualquer verdade, mas só a que interessa à salvação do homem, ou seja, a verdade religiosa, e só aquela que Deus, causa da nossa salvação, quis que fosse registada nas Escrituras. Trata-se de uma verdade não puramente especulativa, mas concreta, que não se dirige apenas à inteligência, mas ao homem todo; uma verdade que é preciso descobrir através dos muitos e variados géneros literários; uma verdade progressiva, revelada por etapas, obedecendo à pedagogia de Deus em relação aos homens; uma verdade que está em toda a Bíblia e não apenas num livro ou num texto isolado. Por isso, a verdade dos textos sagrados só resulta da totalidade da Bíblia, como a santidade da Igreja resulta do conjunto dos baptizados e não de cada um individualmente.

“Porque Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e o que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras.” (DV, 12)
Para esse fim, o Vaticano II lembra que é preciso ter em conta os géneros literários, os sentidos bíblicos e certas regras teológicas de interpretação. Os géneros literários. A verdade é proposta e expressa de um modo ou de outro, conforme se trate de géneros históricos, proféticos, poéticos, etc. Estes géneros devem ser entendidos como os entenderam os povos semitas ou helenistas, no tempo em que foi escrito cada um dos livros (DV, 12).
Os sentidos bíblicos. Tradicionalmente, têm-se distinguido na Bíblia os sentidos seguintes: literal, pleno, típico e acomodatício.
O Sentido literal é aquele que o autor quis dar ao texto. Pode ser próprio e impróprio, figurado ou metafórico. O próprio é aquele em que as palavras são tomadas no seu significado corrente; o impróprio é aquele em que as palavras são tomadas no sentido conotativo ou figurado, por exemplo: «Vós sois o sal da terra.» (Mt 5,13)
O Sentido pleno é o significado mais profundo do texto; sendo inicialmente pretendido pelo autor divino, só se descobre à luz de uma revelação posterior, especialmente à luz do Novo Testamento. Este sentido resulta do facto de a Bíblia ter dois autores: Deus, para quem o futuro é presente, e que, ao inspirar um determinado texto, já conhece toda a revelação posterior nele implícita; e o hagiógrafo ou autor humano, que apenas conhece e tem presente o mistério que Deus quer revelar nesse determinado momento histórico da escrita. Exemplo claro disto são as profecias messiânicas do Antigo Testamento: para nós são claras, porque o Messias já veio; mas o significado que hoje lhes atribuímos não foi atingido plenamente pelo autor sagrado, e só Deus o teve presente desde o princípio.
O Sentido típico dá-se quando certos acontecimentos, instituições, pessoas, etc., por vontade de Deus, representam e prefiguram acontecimentos, instituições e pessoas de ordem superior. Assim, a serpente de bronze erguida por Moisés (Nm 21,8-9) é figura de Cristo crucificado (ver Jo 3,14); a passagem do Mar Vermelho (Ex 14,22) é figura do Baptismo (1 Cor 10,2); o maná (Ex 16,14) é figura da Eucaristia (Jo 6).
O Sentido acomodatício consiste em dar às palavras da Sagrada Escritura um sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar, devido a uma certa semelhança entre a passagem bíblica e a sua aplicação. Este sentido é muito usado na liturgia e na pregação. Temos um exemplo claro nas festas de Nossa Senhora, em que a Liturgia relaciona com a Virgem Maria textos que se referem à sabedoria divina (Pr 8,22-36; Sir 24,14-16).
Regras teológicas de interpretação. Além do já aduzido, o Concílio aponta estes princípios que devem reger a interpretação da Sagrada Escritura: “A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita” (DV,12); ou seja: o mesmo Espírito que inspirou os livros santos deve iluminar os teólogos que, docilmente e com espírito de fé, se dedicam a interpretá-los. Cabe aos exegetas, “de harmonia com estas regras, esforçar-se por entender e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, mercê deste estudo preparatório, vá amadurecendo o juízo da Igreja.” A função dos exegetas é preparar e não substituir o juízo último da Igreja, pois só esta “goza do divino mandato e do ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus” (DV,12).

Os livros da Sagrada Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento, agrupam-se em três conjuntos: históricos, sapienciais e proféticos, conforme o género literário que neles predomina.
Nesta obra, cada conjunto e cada livro são precedidos de uma Introdução. Nela são dadas todas as informações necessárias para enquadrar o texto no seu contexto histórico, geográfico e literário e se apontam os seus objectivos e a sua mensagem teológica.

O Antigo Testamento é a história da revelação de Deus ao povo de Israel, narrada e explicada pelos autores sagrados e escrita nos livros da Antiga Aliança, como verdadeira Palavra de Deus. Estava orientado, “sobretudo, a preparar, a anunciar profeticamente e a significar com várias figuras a vinda de Cristo, Redentor universal, e a do Reino messiânico” (DV,15). Embora a sua missão fosse preparar o povo de Israel para a vinda de Cristo, mantém esse mesmo sentido para os homens de hoje. «A Lei (AT) foi nosso pedagogo para nos conduzir a Cristo» (Gl 3,24). A experiência do povo de Israel é útil também para quem continua à procura de Cristo. Todos temos necessidade de nos preparar para os novos adventos de Cristo, que se realizam na Liturgia e na vida cristã, rumo à Parusia do Senhor.
O Antigo Testamento dá-nos a conhecer Deus e o ser humano e o modo como Deus se relaciona com o homem e a mulher. Porque esse conhecimento está adaptado às pessoas a quem se dirige, no Antigo Testamento encontram-se “imperfeições e coisas restritas a um tempo determinado.” Realmente, Deus tolerou modos imperfeitos de observar a lei moral: poligamia, divórcio, vingança, etc. Mas isso manifesta a pedagogia divina, que vai conduzindo o povo do imperfeito ao mais perfeito. Por isso, o Antigo Testamento conduz à perfeição do Novo Testamento.
Para além disso, o Antigo Testamento já exprime um vivo sentido de Deus, contém doutrinas preciosas sobre Deus e a sua transcendência, sobre a criação, sobre o ser humano enquanto imagem de Deus, sobre a Providência, etc.; e oferece-nos um tesouro admirável de orações. Por isso, “os cristãos devem aceitar devotamente esses mesmos livros”, como raiz do Novo Testamento e do Cristianismo (DV,15).

A constituição Dei Verbum diz que “a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras a par com o próprio Corpo de Cristo”; que sempre as considerou e continua a considerar, juntamente com a Sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé; e, por último, chama-lhes “a fonte pura e perene da vida espiritual”.
Mas, para ser realmente a fonte da vida espiritual, é preciso que a Bíblia volte a ser “a alma da teologia”, da pregação, da pastoral, da catequese e de toda a instrução cristã (DV, 24). Que todos, sacerdotes, religiosos e fiéis mantenham um contacto íntimo e constante com os Livros sagrados através da leitura assídua, do estudo e da meditação. “Porque desconhecer as Escrituras é desconhecer a Cristo” (São Jerónimo). Para isso, são precisas traduções acompanhadas das notas explicativas correspondentes, em todas as línguas vivas, para que cada um as possa ler na sua língua materna (DV, 25).
Para estar cada vez mais em consonância com esta doutrina da Igreja, e porque as ciências bíblicas e da linguagem evoluem, é que a DIFUSORA BÍBLICA meteu ombros a esta edição da Bíblia Sagrada, profundamente revista e actualizada tanto na versão do texto como nas introduções e notas.

A ordem dos elementos é: o nome do livro em abreviatura, o número do capítulo e o número do versículo. Assim, Mt 5,12 corresponde ao Evangelho segundo São Mateus, capítulo 5, versículo 12. Se o livro só tiver um capítulo, aparece apenas o livro e o versículo. Assim, 2 Jo 12 para indicar 2.ª Carta de João, versículo 12.
Quando são citados vários versículos ou capítulos seguidos, estão unidos por um hífen: Mt 5,12-17 (Mateus, capítulo 5, versículos 12 a 17); Mt 5-6 (Mateus, capítulos 5 e 6); Mt 5,20-6,13 (Mateus do capítulo 5, versículo 20 ao capítulo 6, versículo 13, sem qualquer interrupção). Quando são citados vários versículos do mesmo capítulo, mas não todos seguidos, ficam separados por um ponto: Mt 5,12.14-17 (a citação pára no v.12 e continua do v.14 ao 17 inclusive, não incluindo o versículo 13).
Se forem citados diferentes capítulos do mesmo livro, tais capítulos vão separados por um ponto e vírgula mas não é repetido o nome do livro: Mt 5,12.21-23; 6,1-8 (Mateus, capítulo 5, versículo 12 e também do v. 21 a 23 inclusive; e ainda o capítulo 6, do versículo 1 a 8 inclusive).
Como se pode ver, a vírgula vai sempre depois do capítulo, a separá-lo dos versículos.

Pentateuco
·         Livro do Génesis
·         Livro do Êxodo
·         Livro do Levítico
·         Livro dos Números
·         Livro do Deuteronómio
Livros Históricos
·         Josué
·         Juízes
·         Rute
·         1º de Samuel
·         2º de Samuel
·         1º dos Reis
·         2º dos Reis
·         1º das Crónicas
·         2º das Crónicas
·         Esdras
·         Neemias
·         Tobite
·         Judite
·         Ester
·         1º dos Macabeus
·         2º dos Macabeus
Livros Sapienciais
·         Job
·         Salmos
·         Provérbios
·         Eclesiastes
·         Cântico dos Cânticos
·         Sabedoria
·         Ben Sira
Livros Proféticos
·         Isaías
·         Jeremias
·         Lamentações
·         Baruc
·         Ezequiel
·         Daniel
·         Oseias
·         Joel
·         Amós
·         Abdias
·         Jonas
·         Miqueias
·         Naum
·         Habacuc
·         Sofonias
·         Ageu
·         Zacarias
·         Malaquias



Evangelhos e Actos
·         .São Mateus
·         .São Marcos
·         .São Lucas
·         .São João
·         .Actos dos Apóstolos
Cartas de São Paulo
·         .Carta aos Romanos
·         .1ª Carta aos Coríntios
·         .2ª Carta aos Coríntios
·         .Carta aos Gálatas
·         .Carta aos Efésios
·         .Carta aos Filipenses
·         .Carta aos Colossenses
·         .1ª Carta Tessalonicenses
·         .2ª Carta Tessalonicenses
·         .1ª Carta a Timóteo
·         .2ª Carta a Timóteo
·         .Carta a Tito
·         .Carta a Filémon
Carta aos Hebreus
·          
·         .Carta aos Hebreus
Cartas Católicas
·          
·         .Carta de Tiago
·         .1ª Carta de Pedro
·         .2ª Carta de Pedro
·         .1ª Carta de João
·         .2ª Carta de João
·         .3ª Carta de João
·         .Carta de Judas
Apocalipse

·         .Livro do Apocalipse


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

LITURGIA DA PALAVRA – 1º DOMINGO DO ADVENTO




(Domingo, 30 de Novembro de 2014)


Vigiai, porque não sabeis quando virá o dono da casa

LEITURA I – Is 63, 16b-17.19b; 64, 2b-7

Oh se rasgásseis os céus e descêsseis

O Advento começa com um profundo suspiro de fé e de esperança dirigido ao Senhor, “nosso Pai”, “nosso Redentor”, semelhante aos que subiam da boca e do coração dos nossos antepassados na fé, os santos do Antigo Testamento, que viveram antes da vinda do Filho de Deus. Não vamos agora imaginar-nos nos tempos antes de Cristo; mas vamos criar em nós desejos profundos de que Ele, que já veio ao mundo e está no meio de nós, seja por nós reconhecido e acolhido como nosso Salvador, Ele que, de novo, há-de vir e por quem suspiramos.

Leitura do Livro de Isaías
“Vós, Senhor, sois nosso Pai e nosso Redentor, desde sempre, é o vosso nome. Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos e endurecer o nosso coração, para que não Vos tema? Voltai, por amor dos vossos servos e das tribos da vossa herança. Oh se rasgásseis os céus e descêsseis! Ante a vossa face estremeceriam os montes! Mas vós descestes e perante a vossa face estremeceram os montes. Nunca os ouvidos escutaram, nem os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam. Vós saís ao encontro dos que praticam a justiça e recordam os vossos caminhos. Estais indignado contra nós, porque pecámos e há muito que somos rebeldes, mas seremos salvos. Éramos todos como um ser impuro, as nossas acções justas eram todas como veste imunda. Todos nós caímos como folhas secas, as nossas faltas nos levavam como o vento. Ninguém invocava o vosso nome, ninguém se levantava para se apoiar em Vós, porque nos tínheis escondido o vosso rosto e nos deixáveis à mercê das nossas faltas. Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos.”.

LEITURA II – 1 Cor 1, 3-9

Esperamos a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo

O Advento começa por ser o tempo litúrgico especialmente voltado para a última vinda do Senhor. É o tempo da expectativa, vivido na esperança, aguardando a aparição gloriosa do Senhor, que virá coroar o tempo da Igreja com a glória da sua ressurreição. É, portanto, para esta Igreja tempo de vigilância, para que o Dia do Senhor a encontre irrepreensível.

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
“Irmãos: A graça e a paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças a Deus, em todo o tempo, a vosso respeito, pela graça divina que vos foi dada em Cristo Jesus[1]. Porque fostes enriquecidos em tudo: em toda a palavra e em todo o conhecimento[2]; e deste modo, tornou-se firme em vós o testemunho de Cristo. De facto, já não vos falta nenhum dom da graça, a vós que esperais a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele vos tornará firmes até ao fim, para que sejais irrepreensíveis no dia de Nosso Senhor Jesus Cristo[3]. Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor[4].”

EVANGELHO – Mc 13, 33-37

Vigiai, porque não sabeis quando virá o dono da casa

A vigilância, já apontada na leitura anterior, é agora inculcada, com todo o rigor, pelo próprio Senhor Jesus. Esta vida é como longa vigília, com os seus tempos sucessivos (as quatro vigílias da noite referidas no texto) aguardando o sol nascente – Cristo – que vem do alto, como todas as manhãs recordamos na Hora de Laudes. A solenidade do Natal, a que o Advento nos conduzirá, vem, em cada ano, antecipar simbolicamente aquela vinda gloriosa do Senhor no último dia, o dia que nos introduz na “vida do mundo que há-de vir”.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento. Será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse. Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha[5]; não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir. O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!».”





[1] Paulo dá graças a Deus por verificar a eficácia da graça divina e dos dons carismáticos.
[2] Em vós alude à consolidação interior da fé. Mas também poderá traduzir-se por "entre vós" e, então, aludiria à confirmação exterior da pregação por milagres (Mc 16,17-18).
[3] O Dia de Nosso Senhor Jesus Cristo designa "o Dia do Senhor" anunciado pelos profetas, quando Ele vier julgar a humanidade (3,13.15; Sl 7,8; Is 13,9; Jl 2; Am 5,18-20; Mt 25,31-46; 1 Ts 2,19; 2 Ts 2,1).
[4] O motivo desta confiança reside na fidelidade de Deus que quer levar a bom termo o que começou, e que se exprime pela palavra comunhão, que é participação da filiação divina e da vida de Cristo.
[5] Referem-se aqui as quatro partes (vigílias) da noite: à tarde (18-21 h); à meia-noite (21-24 h); ao cantar do galo (0-3 h); de manhãzinha (3-6h). Ver 6,48; 15,25; Ex 14,24; Jz 7,19; 25,1-13; Lc 12,35-48; 21,34; 1 Ts 5,4-6.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

LITURGIA DA PALAVRA – DOMINGO XXXIV do Tempo Comum


(Domingo, 23 de Novembro de 2014)




Vinde, benditos de meu Pai

LEITURA I – Ez 34, 11-12.15-17

Hei-de fazer justiça entre ovelhas e ovelhas, entre carneiros e cabritos

A figura do Bom Pastor, que se desenha neste oráculo dirigido contra os reis israelitas, maus pastores, nos tempos que antecederam o Exílio, corresponde a um título real. Cristo aplicou a Si mesmo este título de Bom Pastor. Ele veio ao encontro do seu Povo, para cuidar dele e o conduzir à felicidade. Dizer de Cristo que Ele é Rei é outra maneira de O designar como o Pastor do povo de Deus.

Leitura da Profecia de Ezequiel
“Eis o que diz o Senhor Deus: «Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei-de encontrá-las. Como o pastor vigia o seu rebanho, quando estiver no meio das ovelhas que andavam tresmalhadas, assim Eu guardarei as minhas ovelhas, para as tirar de todos os sítios em que se desgarraram num dia de nevoeiro e de trevas. Eu apascentarei as minhas ovelhas, Eu as levarei a repousar, diz o Senhor Deus[1]. Hei-de procurar a que anda perdida e reconduzir a que anda tresmalhada. Tratarei a que estiver ferida, darei vigor à que andar enfraquecida e velarei pela gorda e vigorosa. Hei-de apascentá-las com justiça. Quanto a vós, meu rebanho, assim fala o Senhor Deus: Hei-de fazer justiça entre ovelhas e ovelhas, entre carneiros e bodes[2]»”.

LEITURA II – 1 Cor 15, 20-26.28

Entregará o reino a Deus Pai, para que seja tudo em todos

Ressuscitado de entre os mortos, o primeiro entre todos, Cristo, no final dos tempos, tendo submetido a Si todas as coisas criadas, entregará o seu reino ao Pai. E nós, que pertencemos a Cristo, ressuscitados com Ele, também tomaremos parte no seu triunfo total e no seu reino de glória.

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
“Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos; porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida. Cada qual, porém, na sua ordem: primeiro, Cristo, como primícias; a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. Depois será o fim, quando Cristo entregar o reino a Deus seu Pai, depois de ter aniquilado toda a soberania, autoridade e poder. É necessário que Ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. E o último inimigo a ser aniquilado é a morte. Quando todas as coisas Lhe forem submetidas, então também o próprio Filho Se há-de submeter Àquele que Lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos[3].”

EVANGELHO – Mt 25, 31-46

Sentar-Se-á no seu trono glorioso e separará uns dos outros

Jesus retoma nesta leitura a mesma imagem atribuída a Deus na primeira leitura, a imagem do pastor. O julgamento que se propõe fazer será a libertação final de todos os que foram salvos pelo seu Sangue derramado na Cruz, para com Ele se sentarem no seu trono glorioso, se, neste mundo, tiverem seguido os passos do seu Pastor. Esta leitura é assim um anúncio e um convite.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso[4]. Todas as nações se reunirão na sua presença e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’. E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’[5]. Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’. Então também eles Lhe hão-de perguntar: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão, e não Te prestámos assistência?’. E Ele lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’. Estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna».”





[1] Deus é o bom pastor de Israel; é Ele quem conduzirá o povo do Exílio, a fim de habitar novamente na sua pátria (Sl 23; 95,7). Na teocracia judaica que se seguirá ao Exílio - pois a monarquia desaparecerá - Deus é quem irá presidir. Ver v.1-2 nota; v.2-3 nota; v.5-6 nota.
[2] Aqui, fala-se já das ovelhas e não dos pastores. Há dois grupos de ovelhas: as fracas e as fortes. As últimas prejudicam as primeiras, isto é, os ricos e os poderosos oprimem os fracos e desprotegidos do povo.
[3] Há uma ordem, tanto categorial como cronológica, na ressurreição (1 Ts 4,15-16). Trata-se dos eventos finais, quando da sua vinda gloriosa ("parusia"; 1 Ts 2,19; 3,13; 4,13-18.15; 5,23), em que Cristo reunirá todos os eleitos e vencerá todo o principado, toda a dominação e poder, isto é, todas as forças inimigas de Deus (Ef 1,20-21; 3,10; 6,12; Cl 1,16; 2,13-15). Obterá assim o domínio universal, quando forem postos todos os inimigos debaixo dos seus pés (Sl 110,1) e for destruída a própria morte, aqui personificada (Rm 5,12), realizando o desígnio do Pai, que tudo submeteu debaixo dos pés dele (Sl 8,7).
[4] Esta perícopa é uma descrição profética do juízo final. Identificando-se com todos os necessitados como seus irmãos (v.40), Jesus coroa o ensinamento do cap. 24 e daqueles em que falava só dos seus discípulos (10,40; 18,5). Os actos louvados por Jesus correspondem às obras de piedade características do AT e do NT, das quais não eram separáveis as virtudes da justiça e da caridade, em relação aos irmãos mais pequeninos.
[5] Em 10,42, o ensinamento análogo diz respeito só aos discípulos, chamados pequeninos, enquanto aqui se refere a todos os necessitados: os meus irmãos, os mais pequeninos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

LITURGIA DA PALAVRA – DOMINGO XXXIII do Tempo Comum




(Domingo, 16 de Novembro de 2014)


Foste fiel em coisas pequenas: vem tomar parte na alegria do teu Senhor

LEITURA I – Prov 31, 10-13.19-20.30-31

Põe mãos ao trabalho alegremente

Esta leitura é um poema em louvor da mulher valorosa. Com o exemplo da mulher forte, a “mulher de valor”, a liturgia de hoje quer apresentar-nos uma lição de fidelidade ao longo de toda a vida. A Igreja é esta mulher de valor, fiel e laboriosa, à espera do seu Senhor; e, na Igreja, cada um de nós, os seus filhos, o há-de ser também.

Leitura do Livro dos Provérbios
“Quem poderá encontrar uma mulher virtuosa? O seu valor é maior que o das pérolas. Nela confia o coração do marido e jamais lhe falta coisa alguma. Ela dá-lhe bem-estar e não desventura, em todos os dias da sua vida. Procura obter lã e linho e põe mãos ao trabalho alegremente. Toma a roca em suas mãos, seus dedos manejam o fuso. Abre as mãos ao pobre e estende os braços ao indigente. A graça é enganadora e vã a beleza; a mulher que teme o Senhor é que será louvada. Dai-lhe o fruto das suas mãos e suas obras a louvem às portas da cidade.”

LEITURA II – 1 Tes 5, 1-6

Para que o dia do Senhor não vos surpreenda como um ladrão

A palavra de Deus exige dos cristãos a mesma fidelidade de que já falava a leitura anterior ao querer preparar-nos para o dia da vinda do Senhor, dia que virá como o ladrão, sem se fazer anunciar. Mas a certeza da sua vinda não nos pode deixar adormecidos na escuridão da nossa noite. Somos filhos da luz e do dia; havemos de viver despertos e vigilantes, “enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador”

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses
“Irmãos: Sobre o tempo e a ocasião, não precisais que vos escreva, pois vós próprios sabeis perfeitamente que o dia do Senhor vem como um ladrão nocturno[1]. E quando disserem: «Paz e segurança», é então que subitamente cairá sobre eles a ruína, como as dores da mulher que está para ser mãe, e não poderão escapar. Mas vós, irmãos, não andais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão, porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia: nós não somos da noite nem das trevas[2]. Por isso, não durmamos como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios.”

EVANGELHO – Mt 25, 14-30

Foste fiel em coisas pequenas: vem tomar parte na alegria do teu Senhor

A leitura contínua do Evangelho de S. Mateus ao longo de todo o ano vai deixar-nos hoje em frente do Senhor que regressa para coroar os servos que O esperaram na fidelidade, fazendo render os dons que Ele lhes confiou para que os administrassem como fiéis servidores. São dons que, de uma maneira ou outra, vêm sempre de Deus, mas que são dados aos homens para que eles os utilizem para bem dos próprios homens. Assim Deus será glorificado e o seu reino transformará o mundo.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu. O que tinha recebido cinco talentos fê-los render e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. Mas o que recebera um só talento foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos e foi ajustar contas com eles. O que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos: aqui estão outros cinco que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos: aqui estão outros dois que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence’. O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei; devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu. Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez. Porque, a todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância; mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado[3]. Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes’».”




[1] O Dia do Senhor, tema unificador deste texto, é um conceito herdado da profecia e da apocalíptica do AT. Trata-se de uma intervenção omnipotente de Deus, que é juízo e condenação dos que se opõem aos seus planos, e de triunfo e salvação dos que lhe são fiéis. Terror e esperança são sentimentos antitéticos que esse Dia suscita.
Tempos e momentos são uma hendíadis, duas palavras para expressar uma única ideia. A primeira traduz o tempo cronológico, quantitativo (chronoi), e a segunda, o tempo da decisão, qualitativo (kairoi). Indica-se, assim, a soberania de Deus nas suas intervenções históricas (Mt 24,36; Mc 13,32; Act 1,7).

[2] O texto move-se em antíteses: noite/dia, trevas/luz, dormir/vigiar, embriagar-se/ser sóbrio, ira/salvação. A força argumentativa destas antíteses pretende conduzir os destinatários a situar-se de uma forma justa face ao Dia do Senhor e a mostrar-lhes que esse Dia é para eles de salvação e não de condenação.
[3] Jesus recorre a um provérbio (ver 13,12; Mc 4,25; Lc 8,18; 19,26) para justificar a decisão do v.28. Por um lado, mostra a ilimitada generosidade de Deus e, por outro, o rigor do seu juízo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

LITURGIA DA PALAVRA – DOMINGO XXXII do Tempo Comum




(Domingo, 9 de Novembro de 2014)


DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DE LATRÃO

Nota Histórica

Segundo uma tradição que remonta ao século XII, celebra se neste dia o aniversário da dedicação da basílica de Latrão, construída pelo imperador Constantino. Inicialmente foi uma festa exclusivamente da cidade de Roma; mais tarde, estendeu se à Igreja de rito romano, com o fim de honrar a basílica que é chamada «a igreja mãe de todas as igrejas da Urbe e do Orbe» e como sinal de amor e unidade para com a Cátedra de Pedro que, como escreveu S. Inácio de Antioquia, «preside à assembleia universal da caridade».

Não façais da casa de meu Pai casa de comércio

LEITURA I – Ez 47, 1-2.8-9.12

Uma nascente no templo

Leitura da Profecia de Ezequiel
Naqueles dias, o Anjo conduziu-me para a entrada do templo, e eis que saía água da sua parte subterrânea[1], em direcção ao oriente, porque o templo estava voltado para oriente. A água brotava da parte de baixo do lado direito do templo, a sul do altar.
Fez-me sair pelo pórtico setentrional e contornar o templo por fora, até ao pórtico exterior oriental; vi rebentar a água do lado direito. Ele disse-me: «Esta água corre para o território oriental, desce para a Arabá e dirige-se para o mar; quando chegar ao mar, as suas águas tornar-se-ão salubres. Por onde quer que a torrente passar, todo o ser vivo que se move viverá. O peixe será muito abundante, porque aonde quer que esta água chegar, tornar-se-á salubre; e a vida desenvolver-se-á por toda a parte aonde ela chegar.
Ao longo da torrente, nas suas margens, crescerá toda a sorte de árvores frutíferas, cuja folhagem não murchará e cujos frutos nunca cessam: produzirão todos os meses frutos novos, porque esta água vem do Santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas, de remédio.»”

LEITURA II – 1 Cor 3, 9c-11.16-17

As coisas visíveis são passageiras; as invisíveis são eternas

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
“Irmãos:
Vós sois o edifício de Deus.
Segundo a graça de Deus que me foi dada, eu, como sábio arquitecto, assentei o alicerce, mas outro edifica sobre ele[2]. Mas veja cada um como edifica, pois ninguém pode pôr um alicerce diferente do que já foi posto: Jesus Cristo. Não sabeis que sois templo de Deus[3] e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá[4]. Pois o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós.”

EVANGELHO Jo 2, 13-22

Falava do templo do seu Corpo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
“Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira.»
Os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devora[5]. Então os judeus intervieram e perguntaram-lhe: «Que sinal nos dás de poderes fazer isto?» Declarou-lhes Jesus[6], em resposta: «Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei!» Replicaram então os judeus: «Quarenta e seis anos levou este templo a construir[7], e Tu vais levantá-lo em três dias?» Ele, porém, falava do templo que é o seu corpo. Por isso, quando Jesus ressuscitou dos mortos, os seus discípulos recordaram-se de que Ele o tinha dito e creram na Escritura e nas palavras que tinha proferido.”





[1] Do subsolo do Vestíbulo interior do templo jorrava uma torrente de água, que se dirigia na direcção sul, para o Mar Morto, passando pela Arabá, isto é, pela parte meridional do Vale do Jordão. É uma água que vai aumentando progressivamente e dotada de um poder especial: os terrenos tornam-se férteis e o próprio Mar Morto virá a abundar em peixe; as suas margens serão de novo habitadas. En-Guédi é uma povoação no deserto de Judá, nas margens do Mar Morto (1 Sm 24,1; 2 Cr 20,2; Ct 1,14; 4,13-15; Sir 24,14). En-Eglaim é um local não identificado. Esta visão tem um sentido simbólico especial: significa as bênçãos que do novo templo advirão à Terra Santa mediante o espírito de Deus (Jo 7,37-39). O Mar Grande é o Mediterrâneo. Esta imagem da torrente que jorra do templo, o profeta tirou-a da fonte de Siloé (Is 8,6) ou da descrição do rio que regava o paraíso terrestre (Gn 2,10-14; Jo 7,37-39; Ap 22,1.2). Aparece igualmente em Jl 4,18; Zc 14,8.
[2] Na sequência da imagem do edifício, Paulo compara-se a um arquitecto que põe o alicerce insubstituível, que é Cristo (Rm 15,14-21).
[3] A comunidade cristã (6,15-20 nota) é o verdadeiro templo da Nova Aliança, consagrado pela inabitação do Espírito Santo, que vem substituir o templo de Jerusalém (Jr 31,31-34 nota; Ez 16,59-60; Ef 5,21-33). A inabitação do Espírito Santo realiza o que era prefigurado pela presença da glória de Deus no templo de Jerusalém.
[4] Quem o profanar com falsas doutrinas ou com divisões, comete um sacrilégio.
[5] O zelo da tua casa me devorou. Os discípulos evocaram o Sl 69,10 (grego). Este gesto messiânico anuncia a paixão de Jesus.
[6] Destruí este templo. Estas palavras encerram um sentido misterioso que só a reflexão posterior (v.22) permitiu captar: exprimem o mistério da Encarnação, ao designarem o Corpo de Jesus como um templo em que Deus habita (Cl 2,9). Para os inimigos de Jesus, esta afirmação era passível da pena de morte: Mt 21,12-14; 26,61; 27,40; Mc 14,58; 15,29; Act 6,14. Sobre o dar a vida em dois dias e levantar ao terceiro, ver Os 6,1-3; Mt 16,21; 26,61; Mc 8,31.
[7] Quarenta e seis anos. O templo tinha começado a ser reconstruído por Herodes, o Grande, em 19/20 a.C.